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quarta-feira, 25 de março de 2015

Aa Era de Ouro do Flamengo- O Campeonato Brasileiro de 1980


O Campeonato Brasileiro de 1980

A estréia foi diante do Santos, no Morumbi. Para surpresa de todos, inclusive de Coutinho, o Flamengo se apresentou muito bem e mandou no jogo, chegando à vitória com naturalidade. Zico marcou o gol que deu os primeiros dois pontos ao mengo no brasileiro. O treinador disse que a equipe ainda tinha muito a melhorar, mas que estava feliz com a atuação.

De volta ao Rio, o clube recebe uma proposta formal por Leandro, sonho de consumo do técnico Ênio Andrade. Aliás, o colorado era justamente o próximo adversário do fla. Para este clássico, a Diretoria pensa em uma renda de mais de 10 milhões de cruzeiros. Afinal, estariam frente a frente o Tricampeão carioca e o Tri nacional!

Cláudio Adão recebe uma proposta e pode deixar o clube. Essa possibilidade faz Coutinho voltar a pensar em um atacante de nome para reforçar o elenco. Os cartolas também aceitam a proposta do Inter e aceitam trocar Leandro pelo meio campista Cléo.

No coletivo apronto, grande atuação dos titulares. Não foi surpresa a goleada por sete a dois. Zico (4), Adílio (2) e Júnior fizeram os gols. Descontaram Cláudio Adão e Gérson Lopes.

No domingo, o público não foi o esperado. Mas no duelo de Zico contra Falcão, o galinho levou a melhor. Um a zero, gol dele próprio.
Precisando achar um substituto para Adão, o fla faz proposta de 20 milhões de cruzeiros por Roberto Dinamite, então jogador do Barcelona. Nunes, no América do México, é o plano B.

Na véspera da terceira rodada, Marinho sentiu a coxa e foi vetado da partida. Aliás, o jogo contra o Botafogo da Paraíba foi pra se esquecer. Mesmo jogando no Maracanã, o time jogou de maneira irreconhecível e foi derrotado pelos bravos paraibanos, por dois a um. Tita, atuando como centroavante, foi o autor do tento de honra.

Essa derrota, aliás, teve um fato curioso. Preocupado com a repercussão do revés, o Supervisor Domingo Bosco encenou um roubo nos vestiários do estádio. As roupas do craque Zico sumiram e foram prato cheio para a imprensa, que divulgou e explorou amplamente o caso. A derrota acabou ficando em segundo plano.

A torcida não aceita a derrota e passa a cobrar do time. Insatisfeito, Coutinho muda a equipe. Reinaldo e Carlos Henrique são os novos titulares das pontas. Toninho volta a lateral direita e Adílio retorna ao meio de campo.

Enquanto isso, Leandro é devolvido pelo Inter ao não ser aprovado nos exames médicos. Segundo o Departamento Médico colorado, com os joelhos que tinha, ele não poderia jogar futebol em alto nível por muito tempo.

Na quarta rodada, o desempenho da equipe não agrada, mas a vitória acontece. Por dois a zero, o time bate o Mixto, fora de casa, com gols de Carlos Henrique e Zico.

Com o Vasco se sentindo traído e entrando forte na briga por Roberto, o fla recua e retira a proposta pelo artilheiro cruzmaltino. Mas Coutinho recebe o reforço que desejava. Nunes vem por empréstimo, por 1, 8 milhões de cruzeiros.

Na quinta rodada, a equipe volta ao Maracanã e enfrenta novamente as vaias. Mais uma vez, a apresentação não foi nada boa. O triunfo diante do Ferroviário foi apenas por dois a um. Com dois gols de Zico, já um dos líderes da tabela de artilharia.

No dia seguinte, para desviar a atenção, Nunes é apresentado. Ele fica por seis meses, com passe fixado em 18 milhões. Deve estrear na última rodada da primeira fase, frente à Ponte Preta. Na Europa, Marcio Braga surpreende a todos e diz que tem em seu poder uma carta de opção de compra de Roberto. Por ele, o negócio seria fechado em breve. A Rede Globo chega a anunciar a transação e já imagina como seria uma dupla formada por Zico e Dinamite.

Desesperado, o Vasco apela para a recém criada CBF, a fim de impedir a concretização do negócio. A torcida se revolta e pixa os muros de São Januário. O Barcelona exige garantias bancárias e dá prazo ao Flamengo para apresentá-las.

Pela sexta rodada, o rubro-negro vai até Recife e garante a classificação para a próxima fase, ao empatar em dois a dois com o Náutico. Toninho e Tita foram os goleadores da tarde.

De volta ao Maraca, os comandados de Coutinho goleiam o frágil Itabaiana, por cinco a zero. Zico marca quatro vezes (o outro foi de Tita) e assume de vez a liderança dos artilheiros do campeonato.

No oitavo compromisso, a equipe foi até o Rio Grande do Sul e não saiu do zero a zero com o São Paulo local.

Finalmente, a questão dos centroavantes é resolvida. O telex da Federação Mexicana chega e Nunes já tem condições legais de estrear diante da Ponte, em uma grande festa no Maracanã. Enquanto isso, Roberto acaba aceitando a proposta do Vasco e volta ao clube que o revelou. Termina assim uma das grandes novelas da história do futebol carioca.

Tentando entrosar Nunes com o restante da equipe, Coutinho comanda vários coletivos no decorrer da semana. No último, os titulares fazem seis a dois nos reservas. O novo atacante é um dos destaques do treinamento, anotando dois gols, se movimentando muito e entendendo-se muito bem com Zico. O próprio galinho, Adílio, Júlio César e Júnior balançaram as redes para os titulares. Reinaldo e Anselmo descontaram para os reservas.

Flamengo 2x2 Ponte Preta

Na estréia do atacante, Carpegianni manteve o esquema 4-2-1-3, variando para o 4-3-3 com a bola e para o 4-5-1, sem ela. Raul era o camisa um. Carlos Alberto, Rondinelli, Marinho e Júnior formavam a linha defensiva. Carpegianni e Adílio marcavam mais e organizavam o time de trás. Zico jogava solto. Tita era o ponta direita. Nunes, o atacante e Júlio César, o estrema esquerda.

Aos cinco, aconteceu a primeira oportunidade rubro-negra. Júlio César foi lançado, entortou o lateral Édson e cruzou forte. Carlos espalmou para o meio da área e Zico, de puxeta, mandou a bola no travessão. Um lance plástico e sensacional!

A blitz continuou. Aos sete, Júnior roubou uma bola no campo de ataque e inverteu a jogada para Tita. O ponta pegou firme, de primeira, para o meio da área. Zico desviou a trajetória da pelota e Carlos operou um verdadeiro milagre ao desviar com a ponta do pé esquerdo.

O jogo era bom. Aos 13, foi a vez da Ponte chegar. Humberto cobrou falta da intermediária e obrigou Raul a fazer uma difícil defesa, espalmando para o lado.

Aos 18, saiu o zero do placar. Zico lançou Tita na ponta direita. O camisa sete derivou para o meio e deu um passe açucarado para Nunes, nas costas da zaga. O novo artilheiro do mengo avançou e soltou uma bomba indefensável para Carlos.

Só que dois minutos depois, a zaga rubro negra falhou feio e quase permitiu o empate em um contra ataque campineiro. Marco Aurélio lançou Osvaldo nas costas de Júnior e Marinho. O meia finalizou. Raul defendeu e na sobra, Serginho tentou uma cavadinha por sobre o arqueiro caído. Felizmente, a bola bateu na trave e saiu.

O Flamengo parou em campo. Aos 25, Serginho passou como quis por Júnior e cruzou na segunda trave. Zé Mário cabeceou e mandou a pelota de volta ao ponto de origem. Serginho, de cabeça empatou a partida. Um a um! Depois da igualdade, a partida deu uma acalmada e nada de mais interessante aconteceu até o apito final.

Os times voltaram dos vestiários sem nenhuma alteração. No Flamengo, um pequeno ajuste tático. Tita ficava livre para flutuar por todo o meio de campo e Adílio era quem mais aparecia como ponteiro.

Aos nove, Nunes foi levando sem ser incomodado, passou por três e quando a marcação se aproximou, ele apenas rolou de lado para Zico. O galinho bateu de primeira, rasteiro. Carlos nem se mexeu. Flamengo dois a um!

Novamente, o mengo pareceu parar em campo depois de conquistar a vantagem. Aos 15 e aos 17 a Ponte quase empatou em chutes de Édson e Marco Aurélio. Aos 30, Serginho ganhou na velocidade de Júnior, foi a linha de fundo e centrou. Osvaldo se antecipou a Rondinelli, mas desviou por sobre a meta de Raul.

Insatisfeita com o rendimento da equipe, a galera da geral começou a pedir para que Júlio César fosse substituído. Aos 31, Júnior fez grande jogada pela ponta esquerda e cruzou. Zico matou no peito e tocou de bico, na saída de Carlos. O zagueiro Juninho acompanhou o lance e salvou praticamente em cima da linha.

Três minutos depois, Coutinho atendeu ao pedido do torcedor. Pôs em campo Andrade no lugar de Júlio César, recuando um pouco mais a equipe, a fim de garantir o resultado. Com isso, Adílio passou a ocupar a ponta esquerda nos minutos finais.

Não deu certo. Aos 38, Humberto fez lançamento para Odirlei. Rondinelli falhou ao tentar cortar o lance e o lateral esquerdo ficou livre para fuzilar Raul e empatar a peleja. Dois a dois.

Coutinho tentou justificar o tropeço, dizendo que a equipe ainda não havia se entrosado com Nunes e que tanto fazia ganhar ou empatar, pois de qualquer forma, o time ficaria com o segundo lugar da chave, atrás do Santos, que vencera o Mixto na rodada.

O Grupo da próxima fase era formado por Bangu, Santa Cruz e Palmeiras. Os dois primeiros colocados avançavam a terceira fase. No coletivo apronto, vitória dos titulares, por dois a um. Reinaldo e Nunes marcaram. Anselmo descontou.

Em Recife, diante do Santa Cruz, o Flamengo não conseguiu quebrar a seqüência de empates. O zero a zero ligou o sinal amarelo na Gávea. Era a quarta igualdade seguida da equipe. Apesar disso, todos reclamaram muito de um gol mal anulado de Nunes. O mais incrível aconteceu no dia seguinte ao jogo. Pelos jornais, o árbitro da partida, Dulcídio Vanderlei Boschila admitiu o erro e pediu desculpas ao clube.

Só se falava da revanche contra o Palmeiras, marcada para domingo, no Maracanã. Antes disso, porém um amistoso contra a Siderúrgica. Adivinhem só? Empate de um a um, gol de Andrade.

Como o verdão havia perdido para o Bangu na rodada inicial, Zico alertou os companheiros para explorar o desespero esmeraldino. No coletivo, seis (Ronaldo, duas vezes, Anselmo, Reinaldo, Carlos Henrique e Carlos Alberto) a três (Nunes, Tita e Adílio) para os reservas, Coutinho armou a equipe reserva como o Palmeiras vinha atuando e não gostou nada do resultado. Ele demonstrava preocupação para o jogo de domingo.

Flamengo 6x2 Palmeiras

Coutinho escalou Andrade no meio de campo, ao lado de Carpegianni e Zico. Tita, Nunes e Júlio César formavam a linha atacante. Raul, Toninho, Rondinelli, Marinho e Júnior completavam a escalação. O time começou forçando quase todas as suas ações ofensivas pelo lado esquerdo. E foi por lá que saiu o primeiro gol. Júlio César cruzou fechado. Gilmar falhou e soltou a bola na cabeça de Tita. Um a zero, aos treze minutos!

Alguns fatos chamavam atenção. Zico, marcado individualmente por Pires, recuava e abria espaços para a infiltração de Tita, Carpegianni e Andrade, que vinham de trás. Júnior jogava muito mais por dentro, do que pela lateral, deixando Júlio César isolado na esquerda. E Andrade mostrava todo o seu futebol, tomando conta da cabeça da área e apoiando o ataque com eficiência.

Aos 34, Júnior, novamente por dentro, sofreu falta na entrada da área. Zico foi para a cobrança e mandou a redonda no ângulo esquerdo, sem chance alguma de defesa para Gilmar. Golaço! Dois a zero e a festa começava nas arquibancadas do Maracanã.

O rubro-negro voltou sem qualquer alteração para a etapa final. Logo no recomeço de partida, Nunes bateu forte e obrigou Gilmar a fazer boa defesa. Aos seis , Zico e Tita tabelaram pelo meio da defesa até que o galinho fosse derrubado por Pires dentro da área. Pênalti que o camisa 10 cobrou com sua tradicional categoria. Três a zero.

Logo depois, Zico sentiu o músculo e pediu pra sair. Reinaldo entrou em seu lugar, com Tita passando para o meio de campo. Aos 16, Júlio César cobrou um escanteio curto para Júnior, que fez o passe rasteiro para a direita. A defesa esmeraldina ficou olhando e Toninho acertou uma bomba, na gaveta de Gilmar. Quatro a zero. E delírio no estádio.

O Flamengo diminuiu o seu ritmo e o verdão cresceu. Carlos Alberto Seixas finalizou raspando a trave esquerda de Raul. Apesar disso, foi o clube carioca quem marcou o quinto. Aos 27, Tita tocou para Carpegianni e recebeu de volta com uma cavadinha. O ponta ainda teve tempo de dominar e virar, batendo cruzado, no canto direito de Gilmar. Cinco a zero!

Logo após o gol, Coutinho pôs Adílio em campo, no lugar de Júlio César. Aos 29, o árbitro Maurílio Santiago assinalou pênalti inexistente de Marinho em César. Baroninho cobrou e marcou o primeiro tento palestrino. Aos 36, Lúcio passou como quis por Júnior e cruzou. Rondinelli estava mal colocado e Mococa bateu na saída de Raul. O Palmeiras diminuía um pouco o seu vexame na estréia do técnico Oswaldo Brandão.

Ainda haveria tempo para mais um gol do mengo. Aos 43, Toninho abriu a jogada para Reinaldo na direita. O cruzamento saiu alto. Beto Fuscão pulou, mas não de em bola. Nunes dominou e bateu forte. Seis a dois e a vingança mais do que completa.

Após o massacre, Telê Santana elogiou a disposição de Zico, que se sacrificou pela equipe. Nos jornais do dia seguinte, Andrade é eleito o melhor jogador em campo.

O próximo compromisso era frente ao Bangu. Com o galinho recuperado, o mengo venceu por dois a um. Zico, de pênalti e Nunes marcaram nessa difícil, porém importante vitória. Com os dois pontos conquistados, a equipe ficava muito perto da classificação a terceira fase.

Coutinho reclamou do pouco tempo para treinar a equipe. No coletivo apronto, o time não esteve bem e ficou no zero a zero com os reservas. No domingo, no entanto, o triunfo veio. Com o dois a um em cima do Santa Cruz (Andrade e Júlio César), o Flamengo estava matematicamente classificado com duas rodadas de antecedência.

Isso era relevante, pois Coutinho poderia poupar Zico, que apresentava sinais claros de fadiga muscular. Reinaldo entraria na ponta direita e Tita passaria para o meio de campo nas duas partidas restantes. Além disso, Adílio e Rondinelli renovaram seus contratos por mais um ano e deram mais tranqüilidade ainda ao treinador.

Na primeira convocação feita por Telê, para o amistoso contra a Seleção de novos, eram quatro atletas do clube na lista. Zico, Júnior, Raul e Rondinelli. Mozer foi chamado por Nelsinho Rosa para a de novos.

Pela quinta rodada, o Flamengo foi a São Paulo e enfrentou um Palmeiras ávido por vingança. Ficou só na vontade, o empate em dois a dois (Tita e Carlos Henrique) serviu para assegurar a primeira colocação da chave e a vantagem de fazer dois jogos em casa na fase seguinte.

Como tomou o terceiro cartão amarelo diante do verdão, Andrade estava suspenso da partida contra o Bangu. Aliás, Telê acabou também convocando o volante para a Seleção. Todos esperavam que Coutinho fosse escalar novamente Adílio em seu lugar. O técnico surpreendeu a todos e escalou o juvenil Vítor na cabeça da área, mantendo o esquema que dera certo.

Antes de encerrar a participação na segunda fase, era preciso faturar. A equipe foi a Minas Gerais, com o time reserva e ganhou do Atlético-mg em um amistoso pela contagem mínima. Anselmo marcou o gol.

No domingo, Tita foi o grande destaque. Atuando em sua verdadeira posição, o meia marcou os três tentos do triunfo sobre o Bangu. Como primeiro colocado, o Flamengo ficou no Grupo O da terceira fase, onde enfrentaria a Desportiva, a Ponte Preta e o Santos. Apenas o primeiro colocado avançaria para a semifinal.

A tabela divulgada pela CBF revoltou os dirigentes do clube. Eles não queriam enfrentar a Ponte em Campinas. Na verdade, eles gostariam de receber o peixe e a macaca e jogar fora contra a Desportiva. A entidade não mexeu na tabela, apesar da revolta rubro-negra,que chegou a anunciar o rompimento de relações entre ambas.

No coletivo, um a zero para os titulares. Gol de Zico, de pênalti. O treino foi pegado. Tita e Carlos Alberto chegaram a trocar pontapés. Depois, de cabeça mais fria, ambos conversaram e tudo acabou ficando bem.

Na estréia, em casa, uma boa vitória frente a Desportiva. Três a zero, com 3 gols do galinho. Sem receber muitas chances, o atacante Gérson Lopes é devolvido ao Mixto.

A segunda rodada seria decisiva. Se o Flamengo não perdesse para a Ponte Preta, ficaria em ótima situação no grupo. O clima em Campinas era de hostilidade. A torcida lotou o Moisés Lucarelli e apoiou a equipe local desde o início. Um gol de Nunes, na etapa final deixou a parida empatada. Como o Santos tropeçou e só empatou com a Desportiva em zero a zero, mesmo jogando na Vila, o rubro-negro jogaria pelo empate na última rodada, frente ao próprio peixe. Perguntado sobre a postura da equipe, que costuma se soltar no Maracanã, Zico respondeu. “Precisamos ser inteligentes e jogar com calma. Vamos administrar nossa vantagem”.

Flamengo 2x0 Santos

Precisando da vitória, o peixe se mandou para frente. Com espaço, o Flamengo contra atacava com perigo. Em menos de dois minutos, uma chance para cada lado. A partida prometia!

Aos poucos, o rubro-negro começou a impor a sua maior categoria. Zico perdeu uma chance da pequena área, após cruzamento de Tita. Em seguida, Júnior obrigou Marolla a espalmar para escanteio. O gol estava maduro.

E ele saiu aos 12 minutos, Carpegianni lançou Nunes na ponta esquerda. Zico fechou na área como se fosse centroavante e cabeceou firme, no contrapé do goleiro. Um a zero.

O caminho era pelo alto. Júlio César escapou pela esquerda e centrou. Nunes, sozinho, fez como manda o figurino. Testou firme, para o chão. Dessa vez Marolla conseguiu realizar uma brilhante defesa. O Santos sentiu a boa atuação do mengo. Só foi assustar aos 41, em um chute perigoso de Pita, que passou raspando a trave direita de Raul. Ainda houve tempo para que Tita quase ampliasse com uma bomba de perna esquerda.

Coutinho voltou do intervalo com Adílio no lugar de Carpegianni, que sentiu uma lesão. Aos 13, Adílio tocou para Zico que fez fila e passou por dois adversários, até ser derrubado por Neto dentro da área. Pênalti claro que o árbitro Carlos Rosa Martins assinalou. O galinho foi para a cobrança e colocou com a categoria habitual, no canto direito baixo de Marolla. Dois a zero!

Antes de o Flamengo tirar o pé de vez e se poupar para a primeira partida da semifinal, Nunes ainda desperdiçou excelente chance ao chutar em cima do arqueiro santista. Não fez falta. Com a vitória, pela primeira vez o Mengo estava entre os quatro melhores times do país.

Com os resultados do fim de semana, estavam definidas as semifinais: Flamengo x Coritiba e Inter x Atlético-mg. O rubro-negro carioca e o colorado tinham a vantagem de jogar pois dois resultados iguais.

Carpegianni, lesionado, estaria de fora dos confrontos com o coxa. Coutinho confirmou Adílio em seu lugar, mantendo Andrade na cabeça da área e o esquema que vinha funcionando.

Na primeira partida dessa fase, o Flamengo teve uma atuação de gala. Mesmo atuando no Couto Pereira, onde o Coritiba não era derrotado há nove meses, o time carioca impôs a sua maior categoria e venceu por dois a zero. Dois gols de Zico. Com o resultado, o fla praticamente se garantia na decisão do campeonato, já que podia ser derrotado no Maracanã por até dois gols de diferença. O único senão foi o terceiro cartão amarelo recebido por Toninho, automaticamente suspenso. Carlos Alberto foi logo confirmado em seu lugar.

Flamengo 4x3 Coritiba

A vantagem era enorme. Por isso, “apenas” 88.000 pessoas compareceram ao Maracanã. O coxa tinha um bom time. Destacavam-se os veteranos Escurinho e Aladim, ale dos jovens Leomir e Freitas. E realmente, a partida foi muito complicada.

Taticamente, o Flamengo apresentava algumas novidades. Na direita, Tita ficava mais fixo do que em outros jogos, para dar um pé a Carlos Alberto na marcação e no apoio. Na outra extrema, Júlio César recuava bastante para buscar a bola, deixando assim espaço para que Nunes caísse por lá e abrisse espaço pra quem vinha de trás.

Toda essa inovação não durou muito tempo. Zico sentiu a parte posterior da coxa e teve que ser substituído. Reinaldo entrou em seu lugar e Tita passou a jogar no meio de campo. No mesmo instante, a bola foi centrada para a área rubro-negra. Escurinho escorou e Vilson Tadei completou por cima de Raul. Coritiba um a zero.

A situação ficaria ainda pior. Aos 31, Luis Freire foi a linha de fundo e cruzou. A bola passou por todo mundo e chegou limpa para Aladim marcar de voleio. A vantagem do fla tinha evaporado. Era hora de surgir um novo herói.

E ele surgiu no minuto seguinte, sob a forma de um centroavante descabelado. Andrade fez lançamento longo para Nunes que dominou, avançou e bateu firme, de pé esquerdo, diminuindo a desvantagem.

Aos 36, era a vez de Júlio César ter que deixar o gramado machucado. Anselmo entrou em seu lugar. Para felicidade geral da nação. Andrade cruzou, Tita matou mal a bola e Nunes chegou chutando com raiva. Era o empate carioca.

Aos 39, a virada sensacional. Carlos Alberto se antecipou e roubou uma bola na intermediária defensiva. Avançou sozinho, deu o drible da vaca no zagueiro Gardel e acertou uma bomba cruzada no ângulo da meta defendida por Moreira. Flamengo três a dois e a vaga não decisão mais do que encaminhada.

A etapa complementar foi menos frenética. A primeira oportunidade de gol só saiu aos 18 minutos. Adílio achou Tita no meio dos zagueiros. O remate saiu de bico e passou perto da trave direita de Moreira.

Aos 27, não teve jeito. Saiu o quarto gol. Tita fez grande lançamento em profundidade e achou Anselmo em posição duvidosa. O atacante deu o drible da vaca no goleiro Moreira e percebeu que se batesse por baixo, Gardel talvez tivesse tempo de cortar. Ele então deu um lindo toque por cobertura e saiu para os abraços!

O Coritiba ainda diminuiria, aos 44. Depois de um passe de calcanhar de Vilson Tadei, uma escorada de Escurinho e a finalização forte de Luis Freire. Placar final: Quatro a três!

Na outra semifinal, o galo mineiro atropelou o Inter, mesmo jogando em Porto Alegre, por três a zero. Pelo regulamento, o time de melhor campanha na fase anterior decidiria em casa. Portanto, o primeiro jogo seria no Mineirão e a grande final, no Maraca.

A campanha de ambos era quase igual. Mesmo número de pontos, 32. Mesmo número de gols marcados. 43, os melhores ataques da competição. Apenas nos gols sofridos, uma ligeira vantagem para o Atlético (13 contra 17 do mengo).

Na teoria, o time mineiro também levava a melhor. Afinal, ia completo pra decisão. Do outro lado, Coutinho não contaria com Toninho, Zico e Júlio César, pelo menos para a partida do Mineirão. Preocupado, com os desfalques, o treinador decidiu reforçar o meio de campo.

Para apimentar mais o clima, Raul declarou ao Jornal O Globo que o Atlético era velho freguês e que tinha cansado de dar voltas olímpicas em cima deles.

Atlético-mg 1x0 Flamengo

Coutinho armou a equipe com Raul, Carlos Alberto, Rondinelli, Marinho e Júnior. Andrade, Carpegianni e Tita. Reinaldo, Nunes e Carlos Henrique. A partida começou de maneira nervosa, com o Atlético em cima, pressionando, forçando as jogadas com Éder pela esquerda. A idéia era explorar o fato de Carlos Alberto não contar com o apoio de Tita na marcação, já que o ponta direita Reinaldo pouco auxiliava atrás.

O Flamengo tocava bem a bola e esfriava o time e a torcida do galo. Aos 13, Andrade deu uma entrada mais dura em Reinaldo. Foi a senha para que a partida ficasse mais violenta. Aos 18, foi a vez de Jorge Valença pegar Reinaldo por trás. Romualdo Arpi Filho nem amarelo mostrou.

O comentarista da TV Globo, Ciro José chamava atenção para a melhora do time carioca. “O Flamengo se acertou em campo. Toca a bola e não corre riscos”. Aos 30, a primeira oportunidade gol do jogo. Éder cobrou falta na área. A zaga rebateu e Orlando bateu rasteiro, forte. Raul espalmou para escanteio.

A resposta rubro-negra veio no lance seguinte. Tita fez boa jogada individual e bateu de longe. A bola desviou em Nunes e quase enganou João Leite, que no reflexo conseguiu a defesa. Andrade, destruindo com perfeição e responsável por dois cortes precisos que salvaram o mengo era o grande destaque do primeiro tempo.

A etapa final começou de forma agitada. O galo assustou com uma cobrança de falta de Éder e o fla respondeu com uma cabeçada de Rondinelli, que João Leite defendeu de mão trocada.

A equipe carioca era superior no jogo quando aos 10, Júnior falhou ao tentar sair driblando. Palhinha roubou a bola que sobrou para Reinaldo. O chute saiu forte, no canto direito, indefensável para Raul. Atlético um a zero.

Assim que sofreu o gol, Coutinho mexeu no time. Colocou Anselmo em campo, sacando Carlos Henrique. As discussões voltaram a aparecer. Tita e Chicão. Nunes e Osmar. Palhinha e Rondinelli trocavam faltas e insultos a torto e a direito.

O Flamengo sentiu o baque. Aos 15, Cerezo pegou uma sobra na entrada da área e mandou uma bomba que explodiu na trave esquerda. Quase o Atlético ampliava. Aos 24, Reinaldo cobrou escanteio pela esquerda. Nunes subiu sozinho e testou firme. Infelizmente, a conclusão saiu em cima de João Leite, que agarrou firme.

Um minuto depois, Palhinha agrediu covardemente Rondinelli sem bola, depois de uma confusão dentro da área rubro negra e provocou uma fratura no maxilar do zagueiro. Nelson entrou em seu lugar.

Aos 30, mais confusão. Nunes acertou Luisinho caído. Os jogadores do Atlético foram para cima do centroavante, mas a turma do deixa disso conseguiu apaziguar os ânimos. Tita e Chicão voltaram a trocar “gentilezas” em seguida. Romualdo deu cartão amarelo apenas para o mineiro. Aos 37, Reinaldo, de carrinho, perdeu de dentro da pequena área outra grande chance para o galo.

A grande chance do Flamengo chegar a igualdade veio a três minutos do apito final. Anselmo disputou uma bola pelo alto com a zaga atleticana. Deu sorte e a pelota ficou na sua frente, após o bate rebate. A finalização saiu muito perto do gol.

Ainda haveria tempo para Marinho falhar em um corte e deixar Reinaldo livre, na cara de Raul. O goleiro fez uma defesa maravilhosa e evitou que as coisas ficassem piores para o rubro-negro.

Nas entrevistas após o jogo, as visões de cada lado. Por um lado, Tita dizia o resultado havia sido até bom para o Flamengo e que no Rio haveria forra de toda a violência imposta pelos mineiros. Enquanto isso, Cerezo mostrava preocupação, dizendo que o galo perdera muitas oportunidades para sair com um resultado melhor e que jogar no Maracanã, mesmo com a vantagem de poder empatar não era garantia de nada.

Para tentar frear os ânimos, Coutinho garantiu que seu time iria jogar bola e não revidar a violência do galo. Sábias palavras. Uma vitória simples servia para o mengo conquistar o título. Zico, Toninho e Júlio César foram liberados pelo Departamento Médico e reforçariam o time na decisão. O único desfalque será Rondinelli. Manguito jogaria em seu lugar.

A Diretoria já havia encomendado as medalhas e mais de 40.000 litros de chopp para a festa. E ainda anunciou a renovação de Zico, por mais um ano. O galinho, aliás, deu a seguinte declaração ao jornal O Globo. “Chegou a hora de provar que o Flamengo é de fato o melhor time do Brasil”.

Flamengo 3x2 Atlético-mg

Recém saído da operação no maxilar, Rondinelli teria que ser sedado na hora do jogo, para que não ficasse muito nervoso. Antes disso, ele escreveu uma carta aos companheiros,que foi lida na preleção. Lá, ele pedia que conquistassem o título por ele e pela torcida. Isso serviu para incendiar ainda mais aquele grupo de extraordinários jogadores.

Com um minuto e meio, Tita deu no meio de Jorge Valença. Ao contrário de Belo horizonte, José de Assis Aragão mostrou o cartão amarelo ao ponta direita. O início do mengo era nervoso. Aos dois, Carpegianni errou passe simples para Manguito errou na saída de bola. reinaldo recuperou e rolou para Palhinha avançar e assustar Raul pela primeira vez.

O gol saiu aos seis. Osmar adiantou demais a bola. Andrade roubou-a, já tocando para Zico. O galinho esticou para Nunes, nas costas de Osmar. O atacante tocou na saída de João Leite, que abandonava a meta em desespero. A pelota foi mansa, por baixo do goleiro e entrou. Um a zero!

O artilheiro contou depois que tinha ordens de deixar o Luisinho, que era bem mais técnico, sair jogando. Mas que quando quem saísse com a pelota dominada fosse o Osmar, que ele e outros jogadores deveriam apertar a marcação, para forçar o erro. Deu certo.

Não deu nem tempo de comemorar. No lance seguinte, após a nova saída de bola, Reinaldo dominou na área, passou por Andrade e chutou. A finalização tocou em Marinho e matou Raul. Num piscar de olhos, tudo igual. Um a um!

Aos 15, Éder fez fila, passando como quis por Toninho a Andrade. Na hora de marcar, o ponteiro quis enfeitar demais e tentou encobrir o goleiro rubro-negro. Acabou mandando por cima e perdendo ótima chance de colocar os mineiros à frente.

O Flamengo procurava sair para o jogo. Já o galo vivia de bolas longas, esticadas para Reinaldo. E de faltas. Pelo excesso delas, Cerezo e Chicão foram advertidos com amarelo. O centroavante mineiro quase ampliou de novo, aos 32, em escapada as costas de Júnior.

Aos 39, Nunes acertou Luisinho de forma desleal e também foi agraciado com o seu amarelo. Aos 44, o gol. Toninho centrou na área. João Leite não conseguiu encaixar e soltou. Orlando afastou. No rebote, Júnior dominou e bateu. A redonda explodiu em Palhinha e voltou para o lateral que chutou novamente. João Leite já ia caindo para fazer a defesa. Mas, a finalização bateu em Zico e, incrivelmente, ficou a sua frente. Aí, o camisa 10 bateu para a meta, com o goleiro caído e fez dois a um!

Depois do apito final da primeira etapa, mais confusão. Chicão chutou a bola em cima de Júnior, que não gostou e foi tomar satisfações. Os dois trocaram xingamentos e agressões, mas nenhuma atitude foi tomada pelo árbitro. O segundo tempo prometia muitas emoções.

O galo voltou com Silvestre no lugar de Orlando. No primeiro lance, Júnior fez falta em Chicão e, com ele caído, pisou em sua mão. Aragão viu e deu o amarelo ao lateral esquerdo. Aos 11, Geraldo substituiu o lesionado Luisinho.

O panorama da partida nesse momento era favorável ao Flamengo. Jogava bem e nos contra ataques, como gostava. O galo, precisando do gol, se lançava a frente. Numa disputa de bola normal, Reinaldo saiu com a mão na coxa. Distensão muscular. Como as duas alterações já haviam sido feitas por Procópio Cardoso, o atacante ficaria em campo, apenas para fazer número.

Aos 21, o improvável aconteceu. Éder cruzou da esquerda. Marinho não conseguiu cortar e Reinaldo, mesmo com uma perna só, escorou de direita e empatou a decisão. Dois a dois. P título voltava para Minas Gerais.

Imediatamente, Coutinho sacou Carpegianni e pôs Adílio em campo. Aos 24, Reinaldo tentou ganhar tempo e foi expulso por Aragão. Procópio e vários dirigentes do Atlético invadiram o campo. O treinador também foi expulso. O médico Neylor Lasmar, disse que foi agredido pelo árbitro. Também levou o seu vermelho. A partida ficou paralisada por seis minutos.

Nem mesmo a vantagem de um jogador deu tranqüilidade ao rubro-negro. Aos 36, Andrade esticou uma bola para Nunes. O atacante tentou o passe para a direita, mas a pelota bateu em Silvestre e voltou para ele. Sem outras opções, Nunes resolveu arriscar o drible no pé de apoio de Silvestre. Deu certo. Deixou seu marcador para trás e percebeu João Leite já saindo para cortar um possível cruzamento. Para surpresa de todos, o que se viu foi uma finalização, passando por cima do goleiro e entrando. Flamengo três a dois!

Coutinho tratou de reforçar a defesa, colocando Carlos Alberto como volante, exclusivamente para acompanhar Toninho Cerezo. Júlio César deixou o gramado. Com isso, Andrade e Carlos Alberto jogavam como volantes. Tita, Zico e Adílio completavam o meio no 4-2-3-1 armado pelo treinador. Aos 49, Chicão agrediu Tita e foi expulso. Palhinha foi reclamar e também foi pro chuveiro mais cedo.

Com três jogadores a mais, tudo que o mengo precisava fazer era tocar a bola. Mas ainda haveria um último e enorme susto. Carlos Alberto atrasou para Manguito. Sem ritmo de jogo e com as pernas pesadas, o zagueiro que há muito não atuava, tentou recuar para Raul, mas o passe saiu curto. Pedrinho ganhou do goleiro e, quando ia empatar, Andrade surgiu num carrinho salvador, salvando a pátria rubro-negra! Pela primeira vez, o Flamengo era Campeão Brasileiro de futebol! Finalmente, o país se vestia de vermelho e preto!

No próximo texto: O pós brasileiro, a excursão a Europa e o pré Taça Guanabara. Até lá!



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